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Seiza

Seiza e a Tranquilidade

A maneira dos japoneses se sentarem sobre os calcanhares, com uma mão sobre a outra, conhecida como nipon-za (postura japonesa), é um tipo de seiza. Diz-se que só os japoneses sentam em tal posição. Mas tal postura é praticada por qualquer pessoa que se dedique à cerimônia do chá, ao teatro nô ou ao bailado japonês. Muitas vezes, em trens e ônibus, deparamos com japoneses sentados nessa posição. Houve época em que o nipon-za foi quase abandonado no Japão, mas, quiçá pela influência do zen-budismo, vem sendo novamente adotado em todo o mundo.
Na postura, ou seiza, conhecida por nipon-za, as pessoas se sentam sobre os calcanhares, de pernas dobradas. Os homens deixam os joelhos abertos de modo que entre eles possam passar dois punhos fechados e meio; as mulheres, dois punhos. Quando sentamos por pouco tempo, colocamos o peito do pé direito para baixo e apoiamos o peito do pé esquerdo sobre a sola do pé direito. Quando sentamos por longo tempo, o dedão do pé direito é colocado por baixo do pé esquerdo e de vez em quando invertem-se as posições. As mãos descansam sobre o baixo-ventre, a mão direita por baixo. Entretanto, o ponto crucial está na parte superior do corpo: o tronco deve ficar bem ereto e todos os músculos relaxados, exceto os do baixo ventre, que precisam estar bem tensionados.
Sei significa tranqüilidade. É nossa intenção expor alguns aspectos deste conceito de tranqüilidade. O ideograma sei tem um grande número de significados, dentre os quais destacamos os mais amplos:

  1. repouso, antônimo de dô (movimento); diz-se de algo que está firme e imóvel.
  2. estar calado, antônimo de ken (vozerio).
  3. calmo, tranqüilo.
  4. correto, polido.
  5. descansar.
  6. tornar-se claro, transparente.
  7. abrandar-se, amolecer.
  8. valoroso.

Tais sentidos podem ser observados em uma série de palavras compostas como sei-i (vontade serena), sei-kan (visão serena), sei-za (prática de meditação que é feita sentando-se imóvel); sei-shi (contemplação), sei-jaku (concentração), sei-yô (cura, recuperação), etc.
Falaremos de seiza e seishi. Seiza é sentar-se numa atitude calma, tranqüilidade, repouso, silêncio e transparência, ao passo que seishi é um estado de espírito calmo, transparente e correto. Seiza é, então, a expressão de quietude do corpo, ao passo que seishi exprime a tranqüilidade do espírito. Temos assim expressada a quietude dos dois aspectos que fazem o ser humano: corpo e espírito. As duas palavras expressam a quietude do ser humano.
Como os japoneses passaram a usar tal sistema de seiza? Foi por influência do zen. Entre as mais primorosas manifestações da cultura japonesa, que chamam a atenção das pessoas de todo o mundo, vemos o teatro nô, o poema haikai, o arranjo floral ikebana e a cerimônia do chá. Todas essas artes datam de um período que se estende dos fins do século XIV até o século XVI (Período Muromachi), no qual o zen foi totalmente incorporado à vida prática.
Nos tempos antigos, os japoneses não viviam sobre esteiras; sentavam em cadeiras ou de pernas cruzadas sobre o chão de terra batida. Mas gradual progresso foi transformando essas posturas, principalmente depois da classe guerreira dos samurais tomar o poder político. Talvez porque o sentimento de impermanência das coisas, originado na vida do guerreiro sempre exposto a muitos perigos, levasse os samurais a procurar uma resposta para o problema de como viver. Assim, eles praticaram o zen e logo formularam o Bushido, código de honra samurai. Essa atitude dos guerreiros, de dedicação ao zen, foi se popularizando, e depois dos agitados anos de guerra civil do século XIV, na Era Muromachi, generalizou-se e o uso de cadeiras foi completamente substituído pelo seiza. Aí então brotaram e cresceram os elementos culturais acima mencionados. Podemos dizer que a cultura japonesa é a “cultura do seiza”.
Um elemento importante no processo de substituição das cadeiras por essa postura foi o código de etiqueta dos samurais. Organizado por Sadamung Ogasawara, sob a orientação do monge chinês naturalizado japonês Socho, sofreu pequenas alterações na época do shogun Yoshimitsu Ashikaga e tornou-se, enfim, o código oficial da classe guerreira, com o nome de Sangi-ito, conhecido vulgarmente como estilo Ogasawara de etiqueta.
Entre as várias formas de praticar a meditação zen existe a bosatsu-za, ou postura do bodisatva, que consiste em sentar sobre os calcanhares. Essa postura se transformou no nipon-za provavelmente pelo fato do código de honra dos samurais ser calcado nas virtudes do bodisatva, aquele que no seio da comunidade humana se esforça na prática e na difusão dos ensinamentos de Buda. Para manter uma posição na qual se está sempre pronto para instantaneamente atender ao apelo de outrem é preciso a maior calma, até para discernir os ruídos exteriores. Senta-se sobre os calcanhares, sem cruzar as pernas, para conseguir esses dois objetivos. Os guerreiros, que como um bodisatva precisavam responder imediatamente a apelos diversos, manifestaram um grande interesse por essa postura. O uso das esteiras tatami tornou-se comum no início do século XVII. Assim que as vantagens do seiza foram reconhecidas pelos guerreiros, sua prática passou a ser obrigatória no treinamento das artes militares. Os elementos da cultura japonesa são qualificados com a palavra “caminho” � caminho das artes militares, caminho das flores, caminho do chá, etc. Todos eles são aperfeiçoados e sublimados graças ao emprego do seiza.
Certa vez, numa escola de Formosa, investigando as relações entre a disposição mental e a prática do seiza, pediu-se aos professores de judô e esgrima que adiassem o ensino de suas respectivas artes aos alunos recém-matriculados, que foram exercitados na prática do seiza. Os alunos chineses não tinham nenhuma experiência no seiza. Alguns sofriam bastante com apenas cinco minutos de prática, empalidecendo e caindo, ou então expelindo gases. Com perseverança, passaram a tolerar dez, quinze, trinta minutos. Precisaram de dois anos para agüentar uma hora. Depois de adestrados no seiza, passaram ao aprendizado das técnicas. No fim do terceiro ano, muitos, além de alcançarem melhores resultados nos estudos, tinham obtido graus de judô e esgrima. Quando esses alunos chegaram ao quinto ano, foram infelizmente derrotados na competição de esgrima, mas venceram todos os competidores de Formosa no judô e representaram Formosa no Campeonato de Educação Física do Santuário Meiji. Os naturais de Formosa, até então considerados pouco fortes, foram assim recebidos no mundo das artes militares. Esse exemplo é suficiente para mostrar quão útil é o seiza para o aprimoramento do corpo e da mente. Com isso nós podemos compreender a disposição de espírito com que os samurais praticavam o seiza.
Como o zen é a alma mater do seiza? Nos fins da Segunda Guerra Mundial, intelectuais do mundo inteiro, transcendendo o sectarismo religioso, passaram a demonstrar profundo e especial interesse pela maneira zen do homem viver a vida. Isso levou a um verdadeiro boom do zen, que passou a atrair intensamente a atenção das pessoas. Em muitas universidades dos Estados Unidos, de Los Angeles a Cincinati, há professores publicando trabalhos minuciosos sobre zen. O Dr. Clark, do laboratório de psicologia infantil de Detroit, vem realizando trabalhos práticos sobre a utilização do zen na terapia de distúrbios mentais, abrindo, assim, um novo caminho para o zen. Misako Miyamoto, professora de uma universidade feminina japonesa, que realizou tais estudos na América do Norte, publicou um apanhado geral dos mesmos em Psychologia, revista internacional de psicologia do Oriente. Fala ela de seu espanto por ter estudado o zen nos Estados Unidos e manifesta vergonha pelo fato de só no estrangeiro lhe terem ensinado o que há de bom em sua própria cultura. Assim, nos Estados Unidos já foi ultrapassada a fase dos meros estudos e se atingiu a da utilização prática do zen. A teoria de Freud explica as reações psicológicas humanas pelos instintos, mas a moderna psicologia americana já reconhece, além dos instintos, algo real que toca a vida do ser humano. Parece que muitos pensam que o zen é o único caminho que levará ao reconhecimento desse “algo”.

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A revista Kyoiko to Igaku (Educação e Medicina) relatou o seguinte fato: em lares ingleses da classe média para cima, as crianças não aprendem boas maneiras sob coerção, obrigadas a fazerem determinadas coisas e a se absterem de outras. A partir dos três anos, as mães fazem os filhos praticarem seiza consigo, sentados em cadeiras, eretos, calados, respirando ritmicamente. Essa prática diária pode continuar até os vinte anos e chega a ter uma hora de duração. Considera-se, então, terminado o aprendizado de boas maneiras. Diante da ineficácia da coerção externa, procura-se levar o educado a espontaneamente manifestar o desejo de praticar boas maneiras. Aí encontramos uma proximidade entre o Oriente e a Inglaterra, ao que tudo indica por influência do Bushido. No seiza, a parte superior do corpo é mais importante que as pernas, e este relato, que nos informa sobre uma utilização pouco conhecida do seiza, demonstra essa afirmação.
O termo zen vem do sânscrito diana, que na China modificou-se para zen-na, vindo posteriormente a ser abreviado para zen. Zen-na foi traduzido para “pensamento tranqüilo”. Os antigos comparavam a mente à água dentro de uma vasilha, e diziam: Quando a vasilha se move a água se agita, mas quando fica imóvel o líquido fica tranqüilo. Daí a idéia da prática do seiza, que passou a ser considerado o método correto para a abtenção da tranqüilidade mental. Isso porque, quando se está em pé, o centro de gravidade do nosso corpo se acha em posição elevada, sem estabilidade suficiente, o que acarreta um estado de inquietude mental. E, quando se deita, a estabilidade do corpo é excessiva e provoca quietude mental também exagerada, gerando sonolência. Quando se dorme, obviamente não se está no estado de quietude mental visado. Quando tomamos a posição sentada, porém, obtemos o grau ideal de estabilidade física e mental, o estado de quietude mental mais conveniente.
Além da posição sentada, buscaram-se condições ideais para a obtenção da quietude mental. Verificou-se que, de olhos fechados, o praticante tem a sensação de estar balançando e se torna mais propenso ao sono. Por isso, os olhos devem ficar sempre abertos. Como não é bom que o corpo fique apertado, aconselha-se também que as vestes sejam folgadas. Recomenda-se ainda que a coluna vertebral fique rigorosamente na vertical e que seja aumentada a quantidade de ar inspirada no processo respiratório. Para isso, o ideal é a respiração abdominal. Assim, pouco a pouco os antigos foram estabelecendo a posição e as regras propícias para o seiza.
Que esclarecimentos nos dá a ciência moderna sobre o seiza? Vejamos primeiramente a respiração. Ela começa por ocasião do nascimento, quando o ar penetra no interior do corpo do bebê, produzindo seu primeiro vagido. A vida depende da respiração. O fim da respiração é um dos sinais da morte, fim da vida. Existe uma profunda relação entre respiração e saúde. Para ter uma vida longa, é necessário ter uma respiração profunda. Corpo e mente entram em quietude e são criadas melhores condições para a vida.
Um adulto saudável respira doze vezes por minuto. A emoção aumenta esse número. Cólera, a emoção mais fácil de se observar, pode elevá-lo a quarenta por minuto. O corpo fica então extremamente exausto, o que prejudica a saúde. Quando, porém, se pratica o seiza, provocando uma tensão nos músculos do baixo-ventre e regulando a respiração, dentro de dois ou três minutos a freqüência baixa para quatro ou mesmo duas vezes por minuto. Nota-se um aumento da capacidade pulmonar normal, de 500cc., para 1000 ou 2000. Também melhoram as condições da circulação sangüínea. Uma pessoa normal, respirando normalmente, conserva um terço de seu volume sangüíneo mais ou menos estagnado no baixo-ventre. A respiração abdominal controlada acarreta uma circulação perfeita. A pessoa treinada consegue condições ideais de circulação sangüínea após os primeiros quinze minutos de controle. Os batimentos do coração, o pulso e a pressão também atingem condições ideais. Baixa a pressão daquele que a tem alta demais e vice-versa.
Agora, vejamos a questão do gasto de energia pelo organismo. Um homem adulto em repouso necessita por dia um mínimo de 1400 calorias. A prática do seiza e do controle da respiração faz baixar essa necessidade para 1000 calorias. A saúde é mantida com um mínimo de alimentação. A alimentação frugal dos antigos samurais e dos praticantes da cerimônia do chá está relacionada com essas práticas.
Os antigos diziam que a mente estava localizada no ventre. Depois colocaram-na no peito. Hoje, a ciência a situa na cabeça, no cérebro. Vimos como o seiza faz baixar o consumo de calorias. Essa economia é feita com calorias gastas pelo cérebro. Uma pessoa normal gasta mais de 400 calorias no cérebro, mas a prática do seiza diminui esse número mais da metade, e em certas pessoas o faz baixar quase até zero. Isso mostra que o seiza não provoca esforço cerebral. No cérebro humano existem cerca de vinte bilhões de neurônios, como tubos de vácuo num rádio. Cerca de 90% deles são ocupados com funções inconscientes e só 10% com as conscientes. Atuamos voluntária e conscientemente apenas sobre 5% de nossos neurônios, exercitando o pensamento, a memória, etc. Portanto, a recuperação da fadiga sofrida por essa parte é fácil. Entretanto, quando agimos de má vontade, obrigados por outrem, aumenta a atividade inconsciente, já que não o fazemos por vontade própria. Isso coloca em atividade 90% de nosso cérebro e provoca uma fadiga da qual não é fácil se recuperar. Além disso, o trabalho dos neurônios do inconsciente é dez vezes mais rápido do que os ligados ao consciente. Os antigos recomendavam, “Torna-te senhor em todas as circunstâncias”, para resolver todos os problemas da vida e obter realização integral como ser humano. Quando agimos voluntária e independentemente em relação a quaisquer circunstâncias, não atuamos sobre as células vinculadas ao inconsciente e o esforço é muitíssimo menor. O esforço voluntário produz o máximo de resultados com um mínimo de gastos. Este espírito de independência nasce espontaneamente com a prática do seiza. O treinamento nas artes tradicionais japonesas, como em ikebana ou teatro nô, demora longos anos e demanda, através da prática do seiza, que seja desenvolvido o espírito de independência, a fim de se conseguir o máximo trabalho mental com o mínimo de esforço. O Caminho deve ser palmilhado com espírito de independência.

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O cérebro humano emite ondas elétricas de baixíssima freqüência. O psicólogo alemão Hans Berger descobriu a relação entre essas ondas e os vários aspectos da vida psíquica. Uma pessoa de olhos fechados, em atitude de repouso, diminui sua atividade psíquica e tende a adormecer se permanece como está, ou, pelo contrário, tende a aumentar sua atividade se abre os olhos. Porém aquele que pratica corretamente o seiza, consegue, mesmo de olhos abertos, penetrar num estado profundo de repouso que nada tem a ver com o sono. Este é um fenômeno natural, ao passo que o repouso alcançado pelo seiza é obtido através de uma atividade consciente e independente.

A diferença entre o estado de repouso devido ao seiza e o sono pode ser demonstrada através de estímulos sonoros. Quem dorme reage a um ruído através de movimentos lentos. O praticante do seiza reage a ruídos imperceptíveis às pessoas comuns, como o da queda de um alfinete, mas imediatamente se desfaz a tensão provocada pelo ruído e a pessoa volta ao estado de repouso. Uma pessoa comum leva dez segundos para voltar ao normal após um estímulo, mas o praticante do seiza leva apenas um. Ele capta e interpreta com extrema rapidez os mais débeis fenômenos do mundo exterior, não permanecendo apegado a eles sem necessidade. Um poema antigo dizia:

“Para aquele que pratica zen
As pessoas que passam pela ponte
São como árvores.”

Este poema está errado. A versão correta é:

“Para aquele que pratica o zen
As pessoas que passam pela ponte
São aquilo que são.”

O máximo em tranqüilidade mental consiste em ver a realidade tal como ela é. Assim, a postura do seiza é a expressão do máximo em tranqüilidade possível a um ser humano. A prática constante do exercício permitirá, inclusive, conservar esse estado de tranqüilidade em todas as circunstâncias da vida, andando, descansando ou trabalhando. Se isso não acontecer, as ondas cerebrais estarão agitadas e tensas e a pessoa não terá a verdadeira tranqüilidade. A ciência moderna define essa tranqüilidade como sendo a perfeita integração do corpo e da mente ou a manifestação do verdadeiro Eu.
O mundo de hoje está repleto dos mais variados ruídos. Uma entre dez pessoas apresenta distúrbios mentais e oito estão em situação periclitante. Vivemos numa época neurótica. Todos desejam tranqüilidade física e mental. Talvez se deva a isso a atual procura dos métodos orientais para tranqüilizar a mente. Procuremos todos nos esforçar para o alcance dessa tranqüilidade.

Gostaria de agradecer a Senpai Mogami, por colaborar com esse brilhante texto, e me ajudar mais uma, de incontáveis vezes, trilhar o caminho.
Domo Arigato Mogami Senpai.
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