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Kyudô – Kyudou

KYUDO

“Uma flecha, uma vida”

Kyudo é o termo japonês para a arte do arco e flecha, em tradução livre: “Caminho do Arco” (Kyu: arco; Do: caminho).

Hoje o Kyudo é um Budo, ou seja, um caminho marcial cujo o principal objetivo é a meditação, filosofia e auto-conhecimento, um meio para se atingir o estado Zen.

Inicialmente o Kyudo era conhecido como Kyujutsu, ou seja, uma técnica marcial, em que a sua utilização tinha como intenção o combate, assim como, dessa mesma forma o arco e a flecha eram instrumentos/armas para guerra.

Com o passar do tempo, das influências budistas, shintoístas e confucionistas, bem como com as influências dos acontecimentos históricos no Japão, o Kyujutsu perdeu seu aspecto beligerante e se tornou, aos poucos, uma Arte Marcial de ampla divulgação e prática entre os japoneses e no mundo.

O Kyujutsu tornou-se Kyudo no período da Segunda Guerra Mundial, quando o governo japonês inseriu a prática dessa arte no currículo escolar. Ao término da guerra, o treino marcial foi suspenso em todo o país, mas posteriormente, retomado, assumindo a forma de Arte Marcial, ou seja, não mais com intenção de combate, mas sim com objetivo de manter as tradições do país, perpetuar a cultura, aprimorar os esportes e inserir o aspecto filosófico e meditativo.

Obviamente essa transição não ocorreu instantaneamente e o Kyujutsu, antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, já havia ganhado elementos cerimoniais e contemplativos referente principalmente ao confucionismo e budismo até que culminou no Kyudo.

Atualmente, a Federação Nacional de Kyudo (ANFK) é o órgão que regulamenta as atividades do Kyudo no mundo e estimula a sua prática em locais em que houver interessados. Uma das peculiaridades do Kyudo é a grande adesão do público feminino nessa prática.

No Brasil a prática organizada do Kyudo é recente, datando de 2007, com a fundação da Associação Brasileira de Kyudo por Nobuo Yanai Sensei (2º Dan), Elisa Figueira Senpai (Mudan) e com o apoio de Yoshiko Buchanan Sensei (6º Dan). Nobuo Yanai Sensei é responsável pela Kyudo Kai Brasil, Kyudo Kai Rio de Janeiro e Kyudo Kai Distrito Federal, onde existem treinos semanais e organizados (para saber mais: http://kyudo.bandalo.net e http://kyudokai-df.webnode.com.br )

O Kyudo possui algumas ramificações, estilos, como por exemplo a Honda Ryu criada por Honda Toshizane durante a Era Edo.  Apesar dos diferentes estilos, o formato básico do treino se centra sobre o Hassetsu, os oito passos fundamentais do Caminho do Arco.

Durante a execução de um disparo existe uma preparação cerimonial e complexa em regras e etiquetas a ser seguida pelo praticante, é por meio desses passos que o kyudoca aprende e desenvolve: postura, empunhadura, respiração, concentração, centro de energia, moral, sinceridade, beleza e o aprimoramento pessoal.

Assim, afirma-se que o Kyudo é centrado em três fatores essenciais: Shin, Zen e Bi – Verdade, Bem e Beleza. Por assim dizer, o kyudoca exercita a Verdade, ou seja, por meio do treino com arco e flecha tem visão da realidade da sua vida e do meio em que se encontra. Desenvolve o Bem, pois com as regras e cerimônial ganha a disciplina e a moral inabalável de um praticante de Arte Marcial e, por fim, treina a Beleza dos movimentos, sua firmeza, decisão e serenidade perante o alvo.

Aparentemente o treino do Kyudo pode transparecer algo solitário, com exercícios meditativos e silenciosos, contudo, é uma arte que visa também o crescimento coletivo, dessa forma se dá importância ao treino em conjunto e às trocas de experiência entre os praticantes. Outro ponto que é perfil do Kyudo é a relação estreita entre mestre-discipulo, de extremo respeito e devoção.

Durante a prática do Kyudo, ao contrário do que muitos imaginam, o objetivo não é acertar o alvo ou disparar uma flecha o mais longe possível, mas sim, atingir a perfeição do eu. Dessa forma, não interessa se a flecha atinge o alvo, uma vez que a flecha, o arco, o arqueiro e o alvo, no ápice do exercício, devem ser um só. Este é o princípio do Zen e a premissa do Kyudo. Muito embora o Kyudo tenha como objetivo o aprimoramento espiritual, existem competições de Kyudo, apresentações esportivas e ramificações como o Kyuba (arqueiria montada).

Sobre o aspecto de meditação, recomenda-se a bibliografia: “A arte cavalheiresca do arqueiro Zen” por Eugen Herrigel e “O arqueiro zen e a arte de viver” por Kenneth Kushner. Os dois livros abordam a caracteristica Zen do treino de arco e flecha, Eugen Herrigel mostra com ênfase a relação mestre-discipulo importantíssima ao aprendizado. Já Kenneth Kushner coloca mais em evidência o aspecto formal e técnico, explorando a experiência Zen pelo Hassetsu.

Infelizmente a prática do Kyudo no Brasil ainda é muito restrita, pois é uma arte que exige um Dojo com espaço amplo e adequado para efetuar os disparos, bem como seguro. Além disso, não existe material que não sejam importados dos EUA e do Japão, o que dificulta e aumenta os custos da prática. Embora seja uma arte de apenas uma arma, essa tem seus cuidados e peculiaridades de manutenção, o que exige uma série de acessórios. Mais que isso, a medida que o kyudoca ganha experiência vai necessitando avançar com novos materiais. Apesar disso, são mantido os esforços para que o Kyudo se difunda no território brasileiro, pois o Kyudo também acredita que:

“Assim como com uma vela acesa se acende outra,se transmite o genuíno espírito da arte, de coração a coração, para que eles se iluminem.”

(Eugen Herrigel)

 

Texto gentilmente enviado por Simone Mogami

Texto por: Victor Silvares – autor e administrador do blog Sadame – Graduando em Letras e Literatura Japonesa pela Universidade de Brasília
1 – Budismo
O Budismo é uma religião criada na Índia, mas onde atualmente é o Nepal. O Budismo surge numa sociedade estagnada, onde o papel do indivíduo é determinado por sua casta, que lhe é transmitida por laços sanguíneos. A manutenção dessa estrutura é feita pelos costumes religiosos da sociedade Hindu. Com a incapacidade de ascensão e o engessamento social, uma nova estrutura começa a ser necessária.
É exatamente neste contexto que por volta de 500a.c nasce Siddartha Gautama, que posteriormente é conhecido como Buda ou Shakyamuni. Siddartha faz parte da sociedade Hindu, e faz parte de uma família influente. Para que Siddartha possa assumir o comando desta família com sucesso, a verdade sobre o mundo lhe é escondida..Siddartha vive numa sociedade utópica onde todos são ricos, a doença e velhice não existem e a morte não é sequer um problema.
Certo dia Siddartha tem contato com o mundo exterior e fica perplexo. As suas primeiras visões são pessoas com fome, doentes, velhos e pessoas mortas. Neste momento Siddartha deixa de ser apenas um Nobre e dá seus primeiros passos ao que posteriormente será

chamado de Budismo.
Siddartha não admite a verdade sobre o mundo, enquanto uns vivem com conforto e luxo, outros sofrem e são tratados como animais. Ao se deparar com essa dicotomia, Siddartha deixa sua vida luxuosa para que possa meditar sobre a humanidade. Ao se retirar de seu palácio, Siddartha tem contato com ascetas que vivem nas florestas, longe da civilização e de qualquer  materialismo. Siddartha se torna um desses ascetas e passa a viver de uma forma que todos os prazeres lhe são privados. Todo o seu tempo é destinado à meditação e à busca da iluminação e da verdade.
Anos se passam e Siddartha não percebe nenhuma evolução, mas a verdade lhe parece próxima, já que ao viver no extremo luxo e na extrema negação dos prazeres nada lhe foi revelado, o que pouco à pouco se revela é a existência de um caminho do meio, ou seja, viver distante dos excessos. Com esta nova verdade, Siddartha ao meditar sobre um pé de figueira, atinge a iluminação, ou Nirvana, que é o termo traduzido do sânscrito. Neste momento passa a ser chamado de Buda, que significa ‘O Iluminado’.
Buda passa a ensinar sua nova filosofia até os seus últimos dias, conseguindo assim muitos discípulos, que convencidos de seus ensinamentos passaram a transmiti-los de forma a criarem as primeiras sociedades monásticas ou Sangha.
Na visão Hinduísta, Buda não criou uma nova religião e sim aparece como um avatar da divindade Vishnu, que vem ao mundo para acabar com os rituais de sacrifício que eram realizados até então. Siddartha é considerado o 9°(nono) avatar de Vishnu. Seu antecessor é Krishna (importante figura da religião hindu, tratada como dividade), 10° (décimo) avatar ainda está por vir.
Esta é uma versão padrão de como surge o Budismo e como Siddartha atinge a iluminação. Como toda história religiosa alguns floreamentos são adotados, com o exemplo do Budismo Tibetano, ou Lamaísmo, onde ao nascer, Siddartha começa a andar, e onde dá seus passos flores de Lótus aparecem. Mas também é um fato que Siddartha é realmente uma figura histórica, e não apenas um personagem mítico.
O Buda histórico não deixou nenhum sermão escrito, e transmitiu toda a sua filosofia de formal oral, posteriormente alguns discípulos passam a escrever seu ensinamentos, como é o caso do Concílio de Páli, onde após sua morte, seus discípulos se reuniram e ditaram todos os ensinamentos para que estes fosse registrados de forma escrita. Apesar desses acontecimentos, o Budismo não adota nenhum livro como cânone e algumas escolas, como a Zen, desprezam o conhecimento escrito.
Os alicerces da filosofia Budista são dados pelas Quatro Nobres Verdades, que é o conhecimento primordial para que se possa compreender o Budismo. As Quatro Nobres Verdades são:
1 – A Verdade do Sofrimento – Viver é sofrer;
2 – A Verdade da Origem do Sofrimento – Todos os tipos de sofrimento tem uma origem comum, o desejo;
3 – A Verdade do Fim do Sofrimento – Ao renunciarmos o desejo, deixamos de sofrer;
4 – A Verdade do Caminho para o Fim do Sofrimento – O Nobre Caminho Óctuplo.
A quarta nobre verdade nada mais é que a introdução a outro importante conceito para a compreensão do budismo, o Caminho Óctuplo é a manifestação do Caminho do Meio, verdade na qual levou Buda à Iluminação. O Caminho Óctuplo é:
1- Compreensão Correta;
2- Pensamento Correto;
3- Fala Correta;
4- Ação Correta;
5- Meio de Vida Correto;
6-Atenção Correta;
7-Sabedoria Correta;
8-Visão Correta.
Posteriormente estes caminhos foram agregados da seguinte forma:
1- Compreensão Correta;
2- Pensamento Correto;
3- Fala Correta;
Moralidade
4- Ação Correta;
5- Meio de Vida Correto;
6-Atenção Correta;
Concentração
7-Sabedoria Correta;
8-Visão Correta.
Sabedoria
Baseados nesses princípios, o Budismo começa a se expandir pelo mundo. Os discípulos de Buda começam a expandir os seus ensinamentos, a ponto de que o conhecimento budista chega a toda a Ásia.
Os diferentes modos de abordagem dão início a diferentes escolas budistas, existe uma ramificação inicial em que divide o budismo em três (3) vertentes
Mahayana¹ – Budismo que engloba a maioria das escolas. Se instalou basicamente no Leste Asiático em países como China, Coréia e Japão. Ex: Nichiren, Chan, Zen, Jodo Shu, Jodo Shin Shu;
Theravada – Budismo que se instalou no Sudeste Asiático em países como Tailândia e Indonésia, é o Budismo mais próximo do Budismo Primordial, e por este fato, é onde se encontra as escolas mais antigas de Budismo e algumas das escolas mais ortodoxas.
Vajrayana² – Budismo esotérico, na qual fazem parte as escolas Tibetanas, Shingon e Tendai.
¹Alguns estudiosos usam o termo Hinaiana para se referir ao Budismo Theravada, este termo surge de uma forma preconceituosa, mas hoje é usado sem esse intuito.² O Budismo Vajrayana é considerado em algumas obras, como uma ramificação do Budismo Mahayana.
Existem discussões sobre o Budismo ser ou não um religião. Alguns o consideram apenas como filosofia, pois a não existência de uma divindade não o caracteriza como religião. Mas com o seu forte apelo a conceitos morais e regras de conduta estabelecidas, é deveras simples considerar apenas como filosofia e negar todo o seu lado religioso.
2 – Budismo no Japão
O Budismo foi introduzido no Japão, por meio da Coréia,  no ano de 552(Período Asuka). Não foi aceito de imediato e uma série de conflitos aconteceram para que este fosse aceito, conflitos estes que não diziam respeito apenas à religião, e sim a disputas de poder. Alguns nobres se encantaram pelos ensinamentos budistas. Provavelmente a causa para a instalação do Budismo entre os nobres fosse a quebra com os costumes Xintô, criando assim uma diferenciação entre a religião do povo e da nobreza. E foi o que de fato aconteceu, o Budismo se implanta primeiro na casa imperial, e no ano de 587 é declarado como religião oficial do estado.
De fato, o Budismo foi um fator organizacional para o Japão. Introduzindo a escrita chinesa e sistematizando a sociedade. O termo Xintô só passou a existir após a introdução do Budismo no Japão, o termo foi criado para diferenciar o Budismo da religião nativa praticada no Japão. Não existindo centros de ensino sistematizados na sociedade até então, o Budismo passa a introduzir a cultura chinesa no Japão,  aos poucos os costumes, a arquitetura, as tecnologias, ciências, tecelagem , militarismo, entre outras influências. Também é importante ressaltar que à partir dos templos budistas, a escrita foi sendo desenvolvida  e ensinada, criando aos poucos uma escrita japonesa que se difere da chinesa.
O Budismo aos poucos se adapta aos costumes Xintô e cria uma especie de simbiose religiosa, para se adaptar aos costumes japoneses, o Budismo toma emprestado alguns costumes e tradições. Aos poucos essas interações inter religiosas dão uma característica singular ao Budismo no Japão, que pouco a pouco vão o tornando diferente do Budismo praticado no restante da Ásia.
Porém, as escolas implantadas não são genuinamente japonesas, precisando frequentemente de monges vindos da China para pregar seus ensinamentos. Alguns monges japoneses são mandados à China para estudar o Budismo. No Período Heian, estes monges passam a desenvolver um Budismo que está mais próximo da sociedade japonesa, há um sincretismo maior entre as os costumes nativos e pouco a pouco o Budismo passa a se instalar nas mais diversas partes do Japão. As principais escolas budistas deste período são a Shingon e Tendai.
Mas o problema elitista ainda existe, as escolas Budistas são voltadas para a nobreza e estão intimamente ligadas a interesses políticos. No meio deste panorama escolas genuinamente japonesas passam a ser criadas. No período Kamakura temos a criação do Budismo Nichiren, expansão do Budismo Jodo Shu e Jodo Shin Shu, e a instalação das primeiras escolas do Budismo Zen no Japão. Do Período Meiji ao tempo presente, muitas escolas Budistas foram criadas, algumas criadas com novos conceitos, outra apenas como releitura das antigas religiões. Algumas escolas budistas passam a se envolver intimamente com a política.
O Budismo Japonês é mais atrativo ao povo, pois sua prática é mais simples do que os complexos rituais praticados nas escolas mais antigas. Popularizando a salvação, o Budismo atinge um grande número de seguidores, quebrando as barreiras entre os nobres e o povo, no que se trata do Budismo. A escola Jodo Shu, também conhecida como Amidista, dá como o caminho para a salvação a devoção ao Amida Butsu, ou Buda da Luz Infinita. E o simples recitar do sutra “Namu Amida Butsu” tem o poder de levar a sua alma para a Terra Pura( Daí o nome, Jodo Shu, que significa literalmente Terra Pura). Já o Budismo Nichiren, ao recitar o título de um sutra, o Daimoku,  “Nam myoho rengue kyo”, torna a iluminação mais próxima. Ao compararmos com os rituais complexos, sistema de mandalas, sutras e mudras utilizados anteriormente, nos é claro porque o Budismo genuinamente japonês se torna cada vez mais atrativo.
Atualmente, todas as escolas budistas no Japão são Mahayana, exceto raríssimas exceções. A escola com mais seguidores é a Jodo Shu, e a escola com mais templos é a Zen.
3 – Origem do Zen Budismo
A origem do Zen Budismo nos leva aos primeiros ensinamentos do Buda Histórico. É contada a história que em um de seus ensinamentos, Siddartha apenas segura uma Lótus e nada diz. Apenas um dos seus discípulos presentes consegue entender esse ensinamento, seu nome é   Mahakashyapa. Diversas escolas acreditam que o Sutra da Lótus é o sermão mais importante dado por Siddartha, e nele reside a verdadeira compreensão do Budismo e da Iluminação.
Mahakashyapa passa a ser o primeiro mestre Zen, seus ensinamentos são passados de forma oral, de mestre para discípulo até chegarem em Bhodiddarma no século V, o primeiro mestre Zen a sair da Índia e ir para a China, transmitir os ensinamentos de Buda.
Conta-se que Bhodidharma após alguns episódios, medita durante nove (9) anos dentro de uma caverna, olhando apenas para a parede. Bhodidharma continua a transmitir o conhecimento Zen após o episódio em que um jovem corta seu próprio braço para mostrar a fé nos ensinamentos de Buda. Através de Bhodidharma, são contados seis (6) patriarcas que são os principais difusores do Zen na China:
Bodhidharma (बोधिधर्म) (c. 440 – c. 528);
Huike (慧可) (487 – 593);
Sengcan (僧燦) (? – 606);
Daoxin (道信) (580 – 651);
Hongren (弘忍) (601 – 674);
Huineng (慧能) (638 – 713).
Destes patriarcas, os 2 últimos são os mais importantes para a compreensão do pensamento Zen. Conta-se que Hongren estava procurando um monge que pudesse sucede-lo com sucesso, na transmissão do Dharma. Para procurar tal pessoa, Hongren propõe em seu mosteiro que todos escrevam sobre a verdadeira natureza da iluminação. Todos os monges ficaram descrentes, pois acreditavam que o Monge Shenxiu não poderia ser batido. Logo, ninguém escreve o exercício proposto por Hongren. Como era de se esperar, apensar Shenxiu escreve, e seu texto é pregado em uma das paredes do templo.
“O Corpo é a árvore de Bodhi,
a mente é um espelho brilhante.
Com cuidado a limpamos continuamente,
sem deixar que o pó acumule”.
Todos ficam perplexo, achando que nada poderá ser mais coerente que o escrito por Shenxiu, no entanto, no dia seguinte, ao lado do exercício de Shenxiu, aparece um desconhecido sem assinatura:
“Bodhi não é uma árvore
nem a mente um espelho brilhante
Já que tudo é vazio em essência
onde pode o pó acumular?”
Sim, esta era a suprema verdade sobre a iluminação(Bodhi), mas o seu autor permanecia desconhecido. Posteriormente descobre-se que o autor era o cozinheiro do templo, Huineng, que era analfabeto, e havia pedido para um amigo escrever suas palavras. Huineng acaba por tornar-se o novo patriarca do Zen na China, mas alguns monges ficam descontentes e acabam por criar uma outra corrente Budista, onde Shenxiu é o verdadeiro patriarca. Esta escola é extinta em pouco tempo.
Huineng é o último patriarca do Zen na China, e consegue expandir os ensinamentos de Buda por toda a China. Suas palavras são tidas como um marco na compreensão do Zen Budismo. Ao estudarmos linha por linha em paralelo ao texto de Shenxiu, podemos ter uma primeira compreensão do que é verdadeiramente o ensinamento Zen:
“O Corpo é a árvore de Bodhi”;
“Bodhi não é uma árvore”;
Enquanto Shenxiu afirma a necessidade de existência de um corpo para o caminho da iluminação, Huineng nega, a iluminação não precisa de um corpo.
“…a mente é um espelho brilhante”;
“nem a mente um espelho brilhante”;
Huineng agora nega a importância da mente no processo de iluminação.
“Com cuidado a limpamos continuamente,
sem deixar que o pó acumule”.
“Já que tudo é vazio em essência
onde pode o pó acumular?” .
Enquanto Shenxiu prega a necessidade de um autocontrole da mente, Huineng diz que isto não deve existir, pois para o Zen não existem intermediários.
É exatamente este o principal foco do Zen. Pouco palpável, mas é exatamente isto que o Zen prega, a quebra com a lógica, a mente não pode controlar o Zen, o Zen existe independente de qualquer coisa, de qualquer meio. O Zen não é tangível pela intelectualidade, para compreender o Zen deve se deixar de lado qualquer paradigma existente e apenas ser. Ao primeiro contato nos é difícil compreender, mas ao estudar os métodos Zen, e o Zen aplicado à algumas atividades, nos fica claro qual é sua finalidade, mesmo que isso não seja possível na visão Zen.
4 – Zen Budismo
O termo Zen tem origem em Dhyanna, termo sânscrito que significa meditação. Ao ser introduzido na China, o termo Dhyanna tornou-se Ch’an, possivelmente este termo foi corrompido ao chegar no Japão, e por sua similaridade sonora tornou-se Zen. Porém Zen não carrega mais o sentido de meditar, para isto existe o nome Zazen, que seria o sentar Zen.
O Zen Budismo, como em outras escolas, busca o caminho da iluminação. Esta iluminação, em japonês, recebe o nome de Satori ou Dai-Kensho. Dai-Kensho seria um estágio avançado da iluminação, enquanto Kensho é apenas uma iluminação parcial. O foco do Zen Budismo é dado na meditação, entretanto, cada escola tem uma metodologia sobre meditação.
Alguns princípios utilizados no Zen são de grande importância para a compreensão deste. Um deles é o princípio da impermanência, ou seja, nada existe pra sempre. Outro princípio importante é o da Natureza Búdica, qualquer pessoas é um buda em potêncial, somos todos iluminados por natureza, porém temos que seguir este caminho de volta para a iluminação, esta iluminação nos dá uma visão sobre a verdadeira realidade de tudo. Este é a finalidade do Zen.
O Zen tornou-se popular na China, crescendo absurdamente em número de templos, chegando ao ponto de que praticamente todos templos Budistas na China eram da escola Zen. Após crescer na China, o Zen atravessou as fronteiras, muitos templos foram criados no sudeste asiático e principalmente na Coréia.
O Zen Budismo começou a ser introduzido no Japão entre os séculos XII e XIII, sua aceitação foi de certa forma rápida, como as escolas budistas japonesas, o Zen conseguia simplificar ainda mais a iluminação. Sendo fácil de praticar e sendo acessível à população japonesa, seja intelectualmente ou financeiramente. Criou-se também o acesso das mulheres à religião, chegando ao caso de mulheres tornarem-se mestres Zen e dirigirem mosteiros. Ou seja, o Zen entra no Japão com uma série de atrativos.
Existe um número limitado de escolas Zen de expressão, restringe-se basicamente a Soto Zen e Rinzai Zen. Existem também a escola Obaku Zen, que foi introduzida no período Tokugawa, pelas famílias chinesas residentes no Japão, e atualmente foi criada em 1954 a escola Sanbo Kyodan Zen, que na verdade é uma releitura das escolas Soto e Rinzai.
A Escola Rinzai, a primeira escola Zen a ser introduzida no Japão, é levada em ao Japão por Myoan Eisai em 1191. Inicialmente é uma releitura da escola chinesa Linji, mas posteriormente a escola Rinzai cria uma identidade tipicamente japonesa. A escola Rinzai é conhecida por ter um método abrupto, ou seja, que acelera o caminho para a Iluminação. A iluminação é dada através da meditação sobre os Koans, frases que fazem o praticante refletir sobre a verdade. Esta escola também dá ênfase no trabalha árduo. Por tais motivos o Zen é adotado rapidamente pela classe de Samurais, principalmente o Rinzai Zen, pois ao contrário de outras escolas, o Zen pode ser praticado em qualquer lugar, em silêncio, sem necessidade de grandes rituais. O foco da Rinzai Zen no trabalho árduo é adaptada à prática de artes marciais, o que torna atrai ainda mais a classe de Samurais a praticarem Zen. Pode-se dizer que o Zen define a identidade do Samurai.
A Escola Soto Zen é a escola Zen com mais praticantes em todo o mundo. Foi criada por Dogen Zenji, e surge como uma releitura da escola chinesa Caodong, e assim como a Rinzai, adquire a identidade típicamente japonesa com o passar dos anos. Ao contrário da Rinzai, a escola Soto torna-se mais popular entre os camponeses. A escola Soto não faz o o uso de Koans, e também não faz uso de trabalhos árduos. O foco é dado na meditação sentada, ou Shikatanza, que significa “apenas sentar-se”. A escola também faz meditações andando ou Kinrin, e meditações enquanto realizam pequenas atividades, como preparar o almoço, essa meditação chamam-se Samu.
No Zen como um todo, a meditação é o principal método utilizado para atingir-se o Satori, entre uma escola e outra apenas o enfoque da meditação é mudado, mas o Zen continua o mesmo. Entendendo os principais métodos de meditação, podemos compreender a realidade Zen.
5-Koan
Koans são frases usadas pelos mestres, para forçar seus discípulos a compreender a verdade do Zen, algumas frases são famosas como:
“Sabemos o som de duas mãos batendo uma na outra, mas qual o som de uma das mãos?”
Meditando sobre Koans, o praticante consegue quebrar as barreiras que o prendem a realidade, não mais existem duas mãos, nem uma mão. As mãos são duas e “são” uma ao mesmo tempo. O uno e o dual coexistem. Esta é a realidade para o Zen, tudo que existe é Uno, mas ao mesmo tempo existe uma individualidade, e não obstante, o tudo torna-se nada. Difícil de entender ao primeiro contato, porém isso pode ser explicado com um outro Koan.
“O Zen é como o reflexo da lua dentro de um lago.”
Portando uma certa poesia, este Koan nos dá a verdade quando tentamos obter o zen de uma forma lógica. Um objeto glorioso como a lua pode entrar em um lago sem criar uma onda sequer, mas se tentarmos agarrar essa imagem deixaremos a água turva, de modo que não veremos mais a lua como ela é. Essa é a realidade que o Zen prega, a iluminação não pode ser obtida por um processo lógico. Este é um dos motivos na qual não existe um texto sagrado sobre o Zen, não há como expressá-lo de forma lógica, o Zen só pode ser vivido. Como diz esse próximo Koan.
“As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta” .
Este Koan é de mais fácil interpretação. Novamente a verdade é retratada como a lua, ao escrever, ou até mesmo falar sobre o Zen. Corre-se o risco de olharmos para o dedo ao invés da lua, ou seja. Este Koan diz dos perigos de se tornar um escravo das palavras, ao invés de contemplarmos a verdade, e além disso, por mais que um mestre possa apontar a lua, ele não pode olhar a lua pelo discípulo.
Estes Koans começam a deixam claro a filosofia Zen, para se entender o Zen deve-se pratica-lo, pois ele não pode ser atingido por caminhos intelectuais. Ao sentar e meditar sobre os Koans, o praticante aproxima-se do Satori. Compreender o mundo como duas mãos que batem e fazem um único som.
6- Zazen
Zazen é o método de meditação usado pela Soto Zen, e ao contrário da Rinzai. Não se usam Koans. O Zazen procura o caminho inverso. Ao sentar não se deve ter nada na cabeça, os pensamentos não devem existir, e o mundo não será mais externo ao praticante. A prática do Zazen leva ao Shikatanza, ou seja, apenas sentar. Quando o praticante atingir o nível de que não faça mais nada além de sentar, ele estará apto a perceber a verdade do mundo. E assim, atingir o Satori.
O Zazen deve ser praticado na posição de Lótus, colocando o pé direito sobre a coxa esquerda, e o pé esquerdo sobre a coxa direita. Por ser uma posição difícil, também pode se praticar Zazen em Semi Lótus, onde só o pé esquerdo fica sobre a coxa direita. Também existe a posição Birmanesa, onde as pernas tocam o chão do joelho aos pés, pode-se realizar Zazen em Seiza, o modo japonês de se sentar ajoelhado, ou até mesmo praticar sentado, caso seja difícil para o praticante ficar numa das posições anteriores.
O Zazen na escola Soto zen é praticado virado para a parede, ao contrário da escola Rinzai, onde os praticantes miram o centro do Dojo, com os olhos semi-fechados, não tão abertos ao ponto de dispersar e nem tão fechados ao ponto de dar sono. As mãos devem formar o Mudra Cósmico ou Dhyanna Mudra, onde a palma direita vira-se pra cima e a mão esquerda repousa sobre a mão direita, os polegares se tocam levemente. Este mudra deve ser realizado à altura do Hara, ponto este que fica 3 dedos acima do umbigo.
Ao atingir o Satori, o praticante apenas senta, e mais nenhum sentimento, pensamento ou sensação irá atingi-lo. Assim pode-se ter a compreensão da realidade.
Existe uma variação do Zazen, que chama-se Kinrin, onde o praticante anda lentamente, enquanto faz um mudra na altura do plexo solar. Existe também o Samu, onde o praticante faz uma atividade normal, como preparar o almoço ou varrer a casa, mas tentando atingir alguma iluminação. Em ambos os casos, a finalidade é a mesma do Zazen.
7-Zen

O termo Zen, como já foi dito, tem sua origem no termo Dhyanna, que significa meditação. Apesar de não ter mais esse significado, a meditação continua sendo a essência do Zen Budismo. A escola Soto Zen muitas vezes diz usar o termo meditar por não existir um correspondente melhor. Mas compreendendo os métodos usados e finalidades, podemos retratar as escolas Zen como nulistas, ou seja, não existe uma grande atividade, e os praticantes se abstêm de qualquer coisa que aconteça. Qualquer assunto pode ser tratado com naturalidade, e independente do contexto, os praticantes Zen não manifestam nenhuma reação ou opinião sólida. O Zen também é retratado como religião iconoclasta, não dando importância a símbolos, escrituras ou a personagens históricos. Existem relatos de monges que queimam ou cospem em estátuas de Buda, isto pode ser interpretado de uma forma não saudável pela sociedade, além do mais, têm-se a impressão que os praticantes não tem respeito por seus mestres. As palavras são o meio mais poderoso de transmissão de Zen, mas algumas delas podem ser interpretadas de forma errônea, como já foi dito por um mestre Zen: “Se você encontrar o Buda, mate o Buda. Se você encontrar o Patriarca, mate o Patriarca”. Frases e ações como essas devem ser interpretadas com grande cautela.
Como acontece com o Budismo em geral, existe a discussão sobre o Zen ser ou não uma religião. Discussões mais sérias são levantadas em torno do Zen, como por exemplo, se ele é realmente um escola Mahayana ou dá início a uma nova ramificação, ou ainda, o Zen ainda é Budismo, ou é uma filosofia nova baseada no Budismo? Questões como essas podem ser estudadas e nunca levantar uma resposta conclusiva.
O Zen tornou-se popular e gerou uma esteriótipo japonês, onde todo japonês é Zen. O Japão como um país onde a sabedoria transborda, e como fonte de grande espiritualidade. Devemos reconstruir o conhecimento sobre o povo japonês, e evitar esse tipo de pré conceito. Alguns estudiosos afirma que o Zen é o produto genuíno da sociedade japonesa, a essência do povo japonês encontra-se no Zen. Será que figuras populares como o Samurai justo e corajoso são reais, ou apenas um construção idealizada? Será que o Japão sempre teve este comportamento, mesmo antes da introdução do Zen Budismo? O Zen Budismo reconstruiu o Japão, ou o Japão criou o Zen Budismo? Questões como essas devem ser levantadas para evitar uma idealização da sociedade japonesa..
O Zen também é tema pra vários campos de estudo, não só a antropologia, linguística e história. A psicanálise tem estudos sobre o Zen, onde essa manifestação do desejo é dada como influência do Ego (Vontade e desejo, livre de qualquer conceito moral), e os métodos Zen como Koan e Zazen são instrumentos para construir um Superego(Superego é o que suprime o desejo, ou seja, suprime o Ego), em função do Id (Personalidade do Indivíduo).
Muito se tem estudado sobre alguns costumes e artes Zen, como o Ikebana ou Kado, a arte dos arranjos florais. O chado(ou sado) ou chanoyu, a arte de servir e apreciar chás. O shodo, a arte da escrita. Ou até artes marciais como Aikido e Judo.
8- A arte e o caminho Zen
Ao ser introduzido no Japão, o Zen Budismo leva consigo uma série de costumes e tradições que pouco a pouco passam a ser incorporadas à identidade Nippônica.
A notável preocupação de encontrar o caminho da iluminação extrapola os ritos religiosos e é encontrada em atividades pouco ligadas ao Budismo. Algumas dessas práticas são levadas junto a introdução do Zen no solo japonês, como é o caso da arte do chá. Outras são criadas e desenvolvidas à partir de contextos filosóficos e históricos, como é o caso de certas artes marciais. Mas qual relação existe entre tomar chá e atingir a natureza búdica? Isso nos fica claro assim que compreendermos tais práticas.
A arte do chá, Chanoyu ou Chado, foi levada ao Japão por monges chineses, estes cultuavam o hábito de tomar chá verde, tal chá já existia no Japão, mas a sua qualidade era contestável.
O Zen pouco a pouco desenvolve um método cerimonial de se apreciar o chá. Esste método visa a evolução espiritual e a busca pelo caminho, como nos deixa claro o nome Chado, Cha significa Chá, enquanto Do tem o significado de caminho. Então o Caminho do Chá estabelece uma série de regras e uma norma de etiqueta que pode variar conforme a escola.  Em essência todas escolas seguem um padrão. Antes de começar o ritual do chá propriamente dito, os convidados caminham por um jardim zen, ondem contemplam a natureza, essa etapa visa a integração do homem à natureza, fortalecendo o principio de unidade que existe no Zen. Antes de entrar na sala de chá, os convidados lavam suas mãos e bocas. Este não é um gesto de asseamento e sim um gesto simbólico de quebra com o mundo material, após esta lavagem o convidado está apto a entrar na sala do chá. Ao entrar, o mundo deve ser esquecido, a única preocupação deve ser com a cerimonia. O chá deve ser apreciado, assim como os talheres e instrumentos usados, eventualmente se apreciam arranjos florais e pinturas sumiê.
Ao se focar no chá, existe uma unidade entre o convidado e a cerimônia, os dois estão unidos intimamente, todas as ações são feitas com naturalidade e qualquer resquício do mundo exterior é deixado de lado.
Essa idéia de unidade é exatamente o que o Zen procura, não existe distinção entre o que é chá e o que é homem, os dois são um só, e através da prática do Chado o praticante se torna apto a extrapolar esse conceito chá-homem para homem-universo.
Outra prática interessante é o Ikebana ou Kado, Ka significa flor enquanto Do novamente significa caminho. O mesmo conceito do chá é aplicado aqui. Ao construir arranjos florais, o praticante torna tal prática tão natural, que é incapaz de distinguir o praticante do arranjo. Certas regras estéticas fazem parte do Ikebana, como o cuidado com os ramos usados, seus tamanhos e direções. A regra principal é buscar o equilibrio entre os três (3) galhos usados no arranjo. Mas no arranjo de Ikebana, os galhos não são apenas galhos, são símbolos que representam, o Céus, a Terra e o Homem. Ao buscar o equilibrio entre esses galhos, o praticante entra em equilibrio com a iluminação (Céu), com o mundano (Terra) e o consigo (Homem). Essa tríade é um conceito que foi englobado à partir do contato do Budismo com o Xintô.
As Artes Marciais também tem sua preocupação com a iluminação. O Budo, onde Bu significa guerra, e Do significa caminho. Busca trazer a iluminação ao praticante, através do treino de técnicas de combate.
O Budo é uma adaptação do Bujutsu, Jutsu significa arte ou técnica, a única finalidade do Bujutsu é formar soldados aptos ao combate armado e à mãos nuas. Com o final da segunda guerra, tais práticas perdem sua utilidade, e pouco a pouco as escolas marciais vão desaparecendo. Com uma releitura Zen do Bujutsu, o Budo surge, adaptando antigas técnicas de combate ao caminho Zen. Novamente o praticante deve atingir um elevado grau na arte, que é impossível distingui-lo da técnica. Não existe nenhum pensamento, todo o processo acontece de forma natural. Mais uma vez, buscando a iluminação, o praticante deve interpretar a sua naturalidade técnica como uma manifestação da postura que deve ser tomada em relação ao universo.
Existe um crescimento exagerado das artes Zen, onde praticamente tudo pode ser praticado de uma forma a revelar o caminho da iluminação. Também existe grande especulação e inúmeros livros sobre o modo Zen de se executar ações diversas. Hoje podemos encontrar livros que relatam a mente Zen na manutenção de automotores, ou até mesmo na direção automobilística.
9- O Zen e o mundo
O Zen atualmente é praticado em quase todo o mundo, a escola com o maior número de monges fora do Japão é a Soto Zen. Após os anos 80, aumenta o  interesse do mundo na sociedade japonesa, onde muito da sua cultura acaba por se tornar uma moda. O mesmo acontece com o Zen.
Com a popularização das artes marciais, dos samurais, ninjas e gueixas, o Japão se torna uma grande fonte de novidades. Em oposição ao que já existe no ocidente, os costumes japoneses são generalizados como espirituais, pacíficos. Muitas vezes podemos observar uma dicotomia entre ocidente/oriente – bem/mal. Muitas das características adoradas pelo ocidente, se deve a grande influência do Zen na sociedade japonesa.
Glossário
Amidismo – Outro nome dado à escola Jodo Shu, devido à sua devoção ao Amida Buda.
Bhodi – Iluminação.
Buda – O Iluminado, mas comumente o termo é usado pra se referir à Siddartha Gautama.
Bukkyo – Budismo.
Butsudo – Budismo.
Butsu – Buda.
Dai-Kensho – Maior nível que possa ser atingido pela iluminação.O mesmo que Nirvana ou Satori.
Daimoku – Sutra utilizado na escola Nichiren.
Dojo – Local onde se pratica a meditação. Literalmente é o “lugar do caminho”
Kensho – Primeiro estágio da iluminação, termo japonês.
Koan – Frases usadas para forçar a compreensão do Zen..
Kinrin – Meditação andando.
Lamaísmo – Budismo Tibetano praticado pelos Lamas.
Mudra – Símbolos que são realizados com as mãos ao se meditar.
Nirvana – Iluminação. O mesmo que Dai-Kensho ou Satori.
Samu – Um trabalho que é realizado com intuito de meditação.
Sangha – Comunidade monástica.
Sutra – Registros escritos das palavras proferidas por Siddartha Gautama.
Período Asuka – Período da história japonesa que corresponde de 552-710.
Período Heian – Período da história japonesa que corresponde de 794-1185.
Período Kamakura – Período da história japonesa que corresponde de 1185-1333.
Período Tokugawa –  Período da história japonesa que corresponde de 1615-1868
Zazen – Meditação Sentada.
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Bugaku Hoe

Bugaku Hoe: dança e canto budista

Espetáculo consiste em músicas com instrumentos de sopro, corda e percussão, inspiradas em cerimônias budistas

O grupo japonês Bugaku Hoe apresenta músicas da orquestra mais antiga do mundo, com 1.300 anos de história

É possível unir orquestra, bailado e canto budista? Sim. E não é num templo religioso que você verá uma mistura como essa. Pela primeira vez no Brasil, o tradicional grupo japonês Bugaku Hoe se apresentará nas cidades de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. E o melhor: a entrada é gratuita em todos os locais.

Considerado Patrimônio Cultural Intangível, no Japão, o espetáculo Tradições Criativas consiste em Gagaku (orquestra), Bugaku (bailado) e Shomyo (canto budista).

O espetáculo já encantou pessoas da Europa, América do Norte, China e Coréia do Sul.

Coreografias acompanham músicas tocadas por instrumentos de sopro, cordas e de percussão

Bugaku

Bugaku são os bailados que acompanham a música de Gagaku. Dois grupos dançam vestidos com fantasias coloridas e usando máscaras.

Um (Saho Bugaku) acompanha a música introduzida pela China e o outro (Uho Bugaku) acompanha uma música vinda da península coreana.

Gagaku

Gagaku é um conjunto de instrumentos de sopro, cordas e de percussão e é a mais antiga manifestação cultural japonesa e também a mais antiga orquestra do mundo com mil e trezentos anos.

Sua origem se deu com a música de côrte e foi tocada durante rituais religiosos e cerimônias oficiais da Casa Imperial, mas também era tocada por aristocratas apenas por diversão.

Além disso, o Gagaku é a música de ritual do Shinto e atualmente pode ser ouvido em cultos e casamentos xintoístas.

Shomyo

Shomyo é o canto de cerimônia budista e tem como ponto de partida o Shomyo do Tibete. Considerada a arte vocal mais sofisticada no Japão, é transmitida entre os monges budistas(Shingon e Tendai).

Para a maioria dos japoneses, shomyo não é uma música muito familiar, mas ela pode ser ouvida em rituais religiosos.

Mandalas

No bugaku-hoe(cerimônia litúrgica) duas mandalas, diagramas sagrados que encarnam a realidade do budismo esotérico, são colocadas no palco para um rito chamado ‘mandala shomyo’. a mandala taizokai representa a misericórdia de Buda, e a mandala kongokai a sabedoria de Buda, são usadas em conjunto para significar não-dualidade. Os cantos executados pelos monges sentados do lado esquerdo, que está associado com a direção leste e com o sol, é o Tendai shomyo, e os monges, à direita, que está associada com a direção oeste,e  a lua, é o Shingon shomyo. Os bailarinos bugaku executam duas peças diferentes, uma chamada ryo-o, em louvor da taizokai mandala, e a outra chamada nasori, em louvor da kongokai mandala.

Mandala Taizokai
taizokai3

Mandala Kongokai

kongo

Fonte: Made in Japan;  Emabassy of Japan in the UK

Seppuku – Harakiri

Harakiri é um dos mais intrigantes e fascinantes aspectos do código de honra do samurai: consiste na obrigação ou dever do samurai de suicidar-se em determinadas situações, ou quando julga ter perdido a sua honra. Significa literalmente “corte estomacal”. Esse suicídio ritual também é chamado de seppuku, que é uma forma mais elegante de se dizer a mesma coisa.

Várias circunstâncias podiam levar o samurai a praticar o harakiri. Entre elas:
– Como castigo e forma de recuperar a sua honra pessoal, uma vez que esta foi perdida em alguma atitude indigna do nome de sua família e de seus ancestrais;

– A fim de evitar ser prisioneiro em campos de batalha, pois era considerado imensa desonra entre os samurais se render ao adversário; assim, eles preferiam renunciar à vida do que entregar-se a mãos inimigas. Além disso, a rendição também não era uma boa escolha, pois os presos eram quase sempre torturados e maltratados;
– Em um ato de pura lealdade, o samurai chega a se matar para chamar a atenção de seu senhor (daimiô) a algo de errado que ele venha fazendo, advertendo-o. Alguns samurais também se suicidavam ao ver o declínio dos seus senhores, ou mesmo quando estes morriam, como forma de acompanhá-los eternamente e seguir o preceito de que um samurai não serve a mais de um daimiô em sua vida.

O ritual do harakiri era praticado da seguinte forma:
O suicida banhava-se, de forma a purificar o seu corpo e a sua alma e dirigia-se ao local de execução, onde se sentava à maneira oriental. Pegava então sua espada curta (wakizashi), ou um punhal(tanto) e penetrava a lamina no lado esquerdo do abdômen, cortando a região central do corpo e terminava por puxar a lâmina para cima. Era importante o corte ser no abdômen, pois era considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito para o povo japonês. Assim, o samurai estaria literalmente cortando a sua “alma”.
Importante também era para o samurai escrever um poema de morte, que era uma pequena composição poética onde o guerreiro deixava registradas as suas últimas impressões do mundo, algum desejo oculto ou simplesmente uma despedida formal.

A morte por evisceração era lenta e dolorosa, e podia levar horas. Apesar disso, o samurai devia mostrar absoluto controle de si mesmo, não podendo dar sinais de dor ou medo.
Ao lado do suicida ficava um amigo ou parente, o kaishakunin, que portava uma espada. Era uma espécie de assistente do ritual; se o samurai demonstrava não estar mais suportando a dor, o kaishakunin dava-lhe o golpe de misericórdia, decepando sua cabeça.
Seria considerada imensa falta de respeito se a cabeça do samurai rolasse diante de seus parentes, que geralmente também assistiam à execução. Por causa disso o kaishakunin devia acertar o pescoço do samurai de modo a deixar a sua cabeça pendendo, para que esta não fosse degolada. Assim, o kaishakunin devia ser um exímio espadachim, pois não poderia falhar em sua atuação. Era uma função considerada honrosa.
Tornou-se costume entre as famílias de samurais ensinar o filho homem, na véspera de ingressar na vida adulta, o modo exato de se praticar o seppuku.
Nem sempre o ritual era seguido à risca com todos os seus detalhes. Em alguns casos extremos como em campos de batalha, onde não havia tempo para tais preparos, o samurai abandonava a vida apenas enfiando a espada em sua barriga.
O primeiro harakiri registrado na história data de 1170, quando Minamoto Tametomo, figura quase lendária do clã Minamoto, suicida-se após perder uma batalha contra o também famoso clã dos Taira.
O suicídio ritual tinha grande significado para o povo japonês. Vencendo o medo da morte, o samurai vencia também esse grande enigma da humanidade e destacava-se então das outras classes existentes na época. É esse mesmo espírito do samurai que levaram os pilotos suicidas (kamikases) a explodirem junto aos seus aviões durante a Segunda Guerra Mundial.

Fonte: O samurai

Jujutsu – JiuJitsu

O jiu-jitsu, jujutsu ou ju-jitsu(as 3 variantes são escritas com os mesmos Kanji)é uma arte marcial japonesa que utiliza golpes de articulação, como torções de braço, tornozelo e estrangulamentos, para imobilizar o oponente. Inclui também quedas, golpes traumáticos e defesas, como saídas de chaves, esquivas, contra-golpes.

Basicamente usa-se o peso e a força do adversário contra ele mesmo. Essa característica da luta possibilita que um lutador, mesmo sendo menor que o oponente, consiga vencer. Outra característica marcante o diferencia de outras artes: suas avançadas técnicas de luta de chão, com a qual é possível finalizar um adversário por meio de uma projeção e usando-se torções com ambos deitados.

História

A história mais divulgada de praticamente todas as artes marciais orientais se insere na mesma tradição lendária da origem do Zen, ao qual se pretende que estas Artes Marciais estejam ligadas em sua origem: o Zen teve origem na Índia, através da difusão feita por missionários budistas saídos desta região e, nesta linha, se chega à figura lendária de Bodhidharma, indiano que teria sido o 28.º patriarca do Zen, fundador do Monastério Shaolim na China, de onde se teriam originado os estilos de “Kung Fu” (Wu Shu) na China, que teriam sido exportados para o resto do Oriente, nesta clara tentativa de ligar todas as Artes Marciais orientais a esta lendária origem comum com a origem do Zen.

Mas se mesmo esta origem do Zen, na literatura especializada no assunto, é vista pelos estudiosos sérios, como Allan Watts, como tentativa piedosa de traçar uma ligação contínua da tradição com a origem remota na figura do Buda, com muito mais razão o estudioso sério de Artes Marciais deve ser alertado para o perigo de aceitar a Índia ou mesmo a China como “origem” de todos os estilos de luta oriental.

Segundo um especialista do quilate de Donn Draeger, Ph D em Haplologia e especialista em Artes Marciais orientais, “o jujutsu em si é produto japonês”. Para ele, atribuir ao Jujutsu origem mesmo chinesa (sobre a “origem indiana” ele nem cogita) “é o mesmo que atribuir ao inventor da roda o desenvolvimento dos carros modernos”(Donn F. Draeger. Classical Budo. p. 113). Mesmo numa obra escrita por autores da família Gracie, como o livro de Jujutsu do Royce e do Renzo Gracie, vemos uma discussão mais realista sobre esta questão das origens do Jujutsu.

Antigamente havia vários estilos de Jujutsu, e cada clã tinha seu estilo próprio. Por isso o jiu-jitsu era conhecido por vários nomes, tais como: kumiuchi, aiki-ju-jitsu, koppo, gusoku, oshi-no-mawari, yawara, hade, jutai-jutsu, shubaku e outros.

No fim da era Tokugawa, existiam cerca de 700 estilos de Jujutsu, cada qual com características próprias. Alguns davam mais ênfase às projeções ao solo, torções e estrangulamentos, ao passo que outros enfatizavam golpes traumáticos como socos e chutes. A partir de então, cada estilo deu origem ao desenvolvimento de artes marciais conhecidas atualmente de acordo com suas características de luta, entre elas o judô, o caratê e o aikidô.

O Jujutsu era tratado como jóia das mais preciosas do Oriente. Era tão importante na sociedade japonesa que chegou a ser _ por decreto imperial _ proibido de ser ensinado fora do Japão ou aos não japoneses, proibição que atravessou os séculos até a primeira metade do século XX. Era considerado crime de lesa-pátria ensiná-lo aos não japoneses. Quem o fizesse era considerado traidor do Japão, condenado à morte, sua família perdia todos os bens que tivesse e sua moradia era incendiada. Com a introdução da cultura ocidental no Japão, promovida pelo Imperador Meiji (1867-1912), as Artes Marciais caíram em relativo desuso em função do advento das armas de fogo, que ofereciam a possibilidade de eliminação rápida do adversário sem o esforço da luta corporal. As artes de luta só voltaram a ser revalorizadas mais tarde, quando o Ocidente também já apreciava esse tipo de luta.

Por muito tempo, o Jujutsu foi a luta mais praticada no Japão, até o surgimento do Judô, em 1882. O Jujutsu caiu em desuso e perdeu a sua popularidade quando a polícia de Tóquio organizou um combate entre as escolas mais famosas de Judô e Jujutsu que teve por resultado 12 combates de 15 ganhos pelo Judô e um empate. Desta forma a polícia de Tóquio, que resume a sua eficácia a arte marcial pois não usavam armas, escolheu a prática do Judô, desta forma o Judô ganhou fama e popularidade por todo o Japão. Mas o Jujutsu não foi esquecido nem apagado, a sua prática foi mantida viva por algumas escolas. Nos dias de hoje é difícil encontrar a arte marcial antiga e original do Jujutsu pois sofreu algumas variantes e influencias de outras artes marciais de forma a adaptar-se as novas realidades e necessidades dos praticantes.

As principais escolas japonesas de Jujutsu são as seguintes:

* Araki-ryu
* Daito-ryu aiki-jujutsu
* Hontai Yoshin-ryu
* Sekiguchi Shinshin-ryu
* Sosuishitsu-ryu
* Takenouchi-ryu
* Tatsumi-ryu
* Tenjin Shinyo-ryu
* Yagyu Shingan Ryu
* Yoshin Ryu

No Brasil

Em 1917, Mitsuyo Maeda, também conhecido como conde Koma, foi enviado ao Brasil em missão diplomática com o objetivo de receber os imigrantes japoneses e fixá-los no país.Sensei da Academia  Kodokan de judô, Maeda ensinou Carlos Gracie em virtude da afinidade com seu pai, Gastão Gracie. Carlos por sua vez ensinou a seus demais irmãos, em especial a Hélio Gracie. Neste ponto surgem duas teorias. A primeira alega que Maeda ensinou somente o judô de Jigoro Kano a Carlos, e esse o repassou a Hélio, que era o mais franzino dos Gracie, adaptando-o com grande enfoque no Ne-Waza – técnicas de solo do judô, ponto central do jiu-jitsu desportivo brasileiro. Para compensar seu biotipo, a partir dos ensinamentos de Carlos, Hélio aprimorou a parte de solo pelo uso do dispositivo de alavanca, dando-lhe a força extra que o mesmo não dispunha. A segunda teoria, apoiada pelos Gracies, fala que Maeda era, também, exímio praticante de jiu-jitsu antigo, como Jigoro Kano, e foi essa a arte que ensinou ao brasileiros. Porém, em uma recente entrevista, Hélio Gracie afirma que “Carlos lutava judô”. Mas o certo é que o jiu-jitsu tradicional de muito difere do praticado no Brasil atualmente. Este possui mais imobilizações, chaves e finalizações, privilegiando o uso da técnica em detrimento da força.

Na atualidade

Actualmente ainda se pratica o jujutsu associado aos samurais do antigo Japão. Note-se que no caso dessa arte tradicional as palavras ju (flexibilidade, gentil, suave) e jutsu (arte) são diferentes das jiu-jitsu mais utilizadas para classificar o chamado jiu-jitsu brasileiro, criado pelos irmãos Gracie. Crê-se que essa vertente tenha sido propagada na Europa por Minuro Mochizuki.

No caso do jujutsu tradicional são utilizadas armas como o tanto (faca), o tambo (bastão), o kubotan ou kashinobo (semelhante a uma caneta), a tonfa (utilizada pelas forças policiais), o bo (bastão comprido) e a katana, entre outros.

Tendo a vertente de defesa pessoal, militar ou policial compreende técnicas de batimento, projeção, imobilização, controle, estrangulamento e reanimação, além de poder ser combinado com as técnicas de massagem terapêutica (shiatsu ou seitai).

A maior diferença entre os estilos tradicional e brasileiro talvez seja o uso de diferentes armas (bukiwaza) e também uma menor utilização da luta no chão no jujutsu tradicional, sendo que esse utiliza também técnicas de controle como o hojojutsu. Nessa arte também as graduações são diferentes, além de um maior vínculo aos usos e tradições japonesas. A ligação ao mestre é muito forte e são utilizadas com muita freqüências expressões e nomes japoneses no tocante às técnicas.

Fonte: Wikipedia(com adaptações)

Um monge aproximou-se de seu mestre, que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da lua, com uma grande dúvida:
– Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?
O velho sábio respondeu:
– As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta.
O monge replicou:
– Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?
– Poderia – confirmou o mestre – e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio.
– Então – o monge perguntou – por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?
– Porque – completou o sábio – da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário.
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

Fonte: O Samurai

Texto de Ronan Alves Pereira

O Xintoísmo (Shintô) e o Budismo (Bukkyô) são os principais protagonistas do cenário religioso japonês. Porém, séculos antes dessas tradições religiosas tomarem corpo no arquipélago, inúmeras manifestações do sagrado já se faziam presentes — achados arqueológicos (como clavas de pedra e figuras de barro) sugerem ritos de fertilidade e práticas mágicas; com a introdução da rizicultura surgem as cerimônias religiosas ligadas a cada aspecto do cultivo do arroz; escritos chineses antigos falam de práticas xamânicas, mediúnicas e adivinhatórias entre os japoneses do começo da era cristã.
Até o século VI, as crenças autóctones não se encontravam organizadas teologicamente ou centralizadas numa única instituição. Nessa época, em que fora introduzido oficialmente o Budismo no Japão, via Coréia, sacerdotes ligados à corte começaram a organizar as crenças nativas, para distinguí-las do ensinamento budista, sob as denominações alternativas Shintô, Kami-no-michi ou ainda Kannagara-no-michi (shin/kami/kan, “deus”, “espírito”; tô/dô/michi, “via”, “caminho”). Se, por um lado, a tradição proto-xintoísta, para sobreviver ao impacto da introdução do Budismo, teve de organizar-se tomando emprestado da religião importada termos, doutrinas, iconografia etc; por outro, o Budismo, sendo uma religião originária da Índia, também teve de “japonizar-se” e fazer empréstimos da tradição religiosa dos japoneses para conquistar seus corações.

Essas duas tradições religiosas mantiveram uma duradoura e frutífera relação simbiótica ao longo dos séculos e desenvolveram uma espécie de divisão de trabalho, particularmente no que tange a ritos de passagem. Enquanto o Xintoísmo se relaciona mais freqüentemente com ritos de nascimento, matrimônio, inauguração de edifícios etc, o Budismo mantém-se na esfera do culto aos antepassados e rituais fúnebres.
Além do Budismo, cumpre ainda citar o papel do Confucionismo (Jukyô), do Taoísmo(Dôkyô) e do Cristianismo (Kirisutokyô) no mosaico da religiosidade nipônica. O Taoísmo, ensinamento de origem chinesa que enfatiza práticas místicas e a ordenação do Universo, foi adotado oficialmente no Japão no ano 702, como Repartição Governamental de Adivinhação (Onmyôryô). O Confucionismo, escola filosófica chinesa que enfatiza a ação social e a ordem política, tornou-se o fundamento moral e ideológico da elite governante no período Tokugawa (1600-1868). Embora ambos não tenham-se tornado religiões formais no Japão, as práticas adivinhatórias e certos conceitos taoístas foram perpetuados na religiosidade popular, enquanto a ética confucionista passou a reger as relações sociais e influenciou praticamente todas as religiões no Japão. O Cristianismo foi introduzido no país em 1549 por São Francisco Xavier e obteve ampla aceitação no primeiro século de prosetilismo cristão. No entanto, ele ficou proibido de 1639 até o final do século 19, e não se tornou uma religião “naturalizada” como foi o caso do Budismo.
Essas tradições religiosas não ficaram separadas, diferenciadas ou livres de influência recíproca na história multi-milenar do país, resultando numa cultura onde a afiliação exclusiva a determinada religião é uma exceção, e onde o sincretismo é uma constante. De fato, o Japão é um dos raros países no mundo onde as pessoas veneram divindades de religiões diferentes sem maiores constrangimentos; onde há capelas de uma religião no espaço sagrado de outra; ou um sacerdote de uma religião conduza cerimônias em outra religião.

Tal atitude flexível e pragmática frente à religião pode ser creditada como um dos elementos que facilitou, por um lado, a integração dos imigrantes japoneses no universo religioso brasileiro; por outro, a difusão das religiões japonesas fora da colônia nikkei.

Ronan Alves Pereira, Ph.D. Professor de cultura e língua japonesas na Universidade de Brasília. Mestre em Antropologia Cultural pela Universidade de Tóquio e doutor em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente é pesquisador-visitante do Centro de Estudos Japoneses da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Fonte: Japanfoundation